VALSA COM BASHIR

 

capa_brasil“Valsa com Bashir”, documentário que ganhou o Globo de Ouro 2009 de Melhor Filme Estrangeiro, será lançado em fevereiro pela L&PM Editores em formato de graphic novel. A animação, escrita por Ari Folman – também diretor do longa-metragem – e ilustrada por David Polonsky, concorre na mesma categoria ao Oscar 2009.

 

Os quadrinhos de “Valsa com Bashir” reconstroem um dos mais tristes episódios da história recente dos conflitos no Oriente Médio: o massacre de centenas de palestinos em Sabra e Shatila (campos de refugiados no Líbano protegidos por israelenses), executado por milícias cristãs em setembro de 1982. Na época, Ari Folman era um soldado de Israel enviado para aquele local.

 

Em entrevista publicada no site Amazon.com, Ari Folman e David Polonsky explicam como surgiu a idéia para o livro, o processo de criação da animação e dos quadrinhos e a principal mensagem contida na obra.

 

Como surgiu a idéia para o livro Valsa com Bashir?

Ari Folman: O projeto começou como um filme, claro, mas o filme era mais influenciado pelos graphic novels (romances gráficos) do que por qualquer outra coisa que já tenha visto. Sou um grande fã de graphic novels, e os livros em geral não saíam da minha cabeça durante todo o processo, especialmente Catch 22, Matadouro Nº 5, e As aventuras de Wesley Jackson ? romances de escritores que haviam vivenciado a experiência da guerra e depois, com um olhar distanciado, conseguiram descobrir o aspecto irônico e divertido que havia naquilo tudo. De modo que a versão em livro sempre me pareceu óbvia e trabalhamos nos dois simultaneamente.

 

Por que a escolha pela ilustração? Por que contar esta história através de quadrinhos e animação?

Ari Folman: Isto nos deu total liberdade para fazer o que bem entendêssemos. Podíamos passar de uma dimensão para a outra, de fatos reais ao subconsciente, aos sonhos, às alucinações. Isto nos deu a liberdade de jogar com uma gama variada de elementos em um único enredo fluido, sem qualquer tipo de limitação, além de permitir que as cenas de guerra ? que todos já estão cansados e acostumados a ver ? adquirissem um aspecto totalmente novo.

 

Em relação aos desenhos, qual foi o maior desafio?

David Polonsky: As ilustrações tinham de ter um forte sentido de verdade. Eu não tinha como fingir que as coisas que eu mostrava haviam acontecido exatamente daquela maneira, embora tivessem que estar sempre atreladas à autenticidade. Para várias cenas, no entanto, eu não possuía qualquer tipo de referência ? como aquela em que Ari está no terminal aéreo de Beirute, por exemplo. Some-se a isso o fato de que, por ser israelense, não posso ir a Beirute, o prédio em si foi demolido e reconstruído. Assim, não tinha a menor idéia de como o terminal seria por dentro. Mas havia algumas referências que podiam ser utilizadas: a cena se passava na década de 80 e o prédio era dos anos 30, e também havia o Ari e a impressão que ele teria sofrido como um jovem soldado diante do esplendor do modernismo europeu presente na construção. Recolhemos velhos pôsteres de companhias aéreas do Líbano e esses detalhes se refletiram nos painéis.

 

A história é de autoria de Ari, e bastante pessoal, mas os desenhos são de David. Como foi esse trabalho em conjunto?

Ari Folman: Foi um processo longo, em que conversamos muito sobre aquilo que estávamos prestes a criar. No início, David achou difícil transformar algo tão íntimo, tão pessoal, em algo que pudesse ser desenhado. Acho que é muito raro que um ilustrador possa incorporar a história de outra pessoa por três anos de sua vida. Também foi bem difícil para mim, porque não sei desenhar, e essa limitação significava que teria de me entregar por inteiro às mãos de outra pessoa.

 

David Polonksy: Para mim, a dificuldade estava em criar o jovem Ari, como ele era nos anos 80, alguém que eu não conhecia. Havia pouquíssimas fotografias daquela época. Eu tinha que inventar alguém que combinasse um espírito rebelde com um senso de conformidade e uma certa inocência. Ari não conseguia aceitar as regras do mundo ao seu redor ? no que nada mudou ? mas ele, apesar disso, se tornou um oficial do exército. Então lhe dei um corte de cabelo nada convencional e o deixei com a barba mal-feita, o que é bastante incomum para o exército.

 

Ari Folman: Minha mãe diz que ele não fez jus a minha beleza. E quanto aos desenhos dos dias atuais, David teve que trocar inúmeras vezes a cor dos meus cabelos: fico mais grisalho a cada dia que passa. Agora falando sério, a maior de todas as conquistas de David é ter conseguido me personificar aos dezenove anos. Não sinto qualquer tipo de ligação com aquela pessoa e só consigo reencontrar o jovem que fui através do retrato de David.

 

Você tem insistido que Valsa com Bashir não é um projeto político, mas não há como ler o livro ou ver o filme e evitar as naturais relações com a política.

Ari Folman: A questão é que não pretendi fazer um filme ou um livro com uma mensagem política É antes de mais nada uma história pessoal. Mas algumas coisas foram muito importantes para mim, coisas que você poderia chamar de “políticas”. Enfrentamos uma árdua travessia para evitar qualquer abordagem da guerra que pudesse parecer heróica.

 

David Polonsky: Havia, além disso, algo que era de crucial importância para nós, que era evitar a representação dos soldados como vítimas. Há um dito em Israel sobre atirar e lamentar: nós atiramos e depois lamentamos o infortúnio de ter atirado. Não queríamos nada disso na história, nada a ver com autocomiseração. Há somente uma mensagem, clara e simples: a guerra é terrível.

 

Ari Folman: Veja bem, Valsa não traz nenhuma novidade em relação ao que aconteceu em Sabra e Shatila. Todos conhecem o que foi relatado e eu não tenho nada de novo a acrescentar. Estava interessado na vida do soldado comum, no seu ponto de vista, e na cronologia de sua compreensão do massacre.

 

O livro e o filme estão sendo lançados nos Estados Unidos no exato momento em que o conflito parece mais acirrado do que nunca.

Ari Folman: Não sou assim tão pessimista. Todo mundo sabe que um dia haverá a Palestina. Em Israel, a maioria das pessoas quer levar uma vida comum. Querem um bom salário, pagar menos impostos, viajar para o exterior nas férias uma vez por ano. Não querem viver pela espada. Veja as coisas pelo seguinte ângulo: Fiz o filme Valsa através de uma co-produção com a Alemanha. Sessenta anos atrás, as famílias de meus pais foram massacradas pelos alemães. Meus pais foram os únicos sobreviventes. O que são sessenta anos se os pensarmos em uma perspectiva histórica? Nada, mas a mudança é profunda. Estive no Festival de Cinema de Sarajevo: pense no que aconteceu por ali há treze anos. Agora eles vivem em paz. Ou seja, as coisas podem acontecer.

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