IMPERIUS CASSIUS – ENCONTRO COM O MESTRE DOS SONHOS – PARTE 1

Vou usar minha coluna para contar uma das coisas mais legais que me aconteceu trabalhando com Quadrinhos: puder conhecer o genial Neil Gaiman. Me encontrei com ele duas vezes, em maio de 2001, quando a Conrad (onde eu trabalhava) trouxe ele para a Bienal do Rio, e o ano passado na Flip (2007).  Hoje falarei do primeiro encontro. Eu era o editor dos mangás da Conrad quando fiquei sabendo pelos meus chefes que, não só traríamos o Gaiman para o Brasil, mas eu iria acompanhá-lo por aqui, graças a ser um conhecedor de HQs e a falar inglês bem.

Me encontrei com Gaiman no Aeroporto do Rio de Janeiro, em um sábado. Passaríamos o final de semana lá e ele iria dar umas entrevistas e fazer duas sessões de autógrafos na Bienal. E foi arrebatador, com mais de 500 pessoas por dia, isso porque eram horários pré-determinados, senão seria mais. No pouco tempo livre que tínhamos, ficávamos batendo papo, e posso dizer que ele é um dos caras mais simpáticos e humildes que já conheci. Uma das primeiras coisas que fez foi me dar uma prova que tinha do ainda não lançado Deuses Americanos e me dizer que, se eu quisesse ler, teria cinco dias. Claro que devorei o livro.

Pegamos o avião para São Paulo no domingo no começo da noite. Na poltrona na nossa frente estava o Angeli. Já na terra da garôa, fomos até a minha casa buscar meu carro e aproveitei e apresentei o cara para minha mãe, que tinha lido o Caçadores de Sonhos e achou um barato conhecê-lo. Fomos deixar as coisas dele no hotel e de lá seguimos para jantar no Rascal da Al. Santos, onde um amigo meu (que não é fã de HQs e nem conhecia o Gaiman) se juntou a nós. Era bom podermos falar de outros assuntos pra ele se distrair.

Ele pediu peixe e nós pizza, e ele provou e gostou da pizza de SP. Lá pelas tantas Mr. Gaiman pega um lápis de cera e começa a fazer um desenho do Sandman em um papel já meio sujo (para quem não conhece o Rascal, as toalhas da mesa são papéis brancos e tem giz de cera na mesa). Eu digo pra ele não caprichar demais senão ia querer aquele desenho. Ele capricha, assina e não só me dá como faz um outro desenho da Morte para o meu amigo. O cara é foda.

Passo segunda e terça como um assistente dele, levando para entrevistas e também para conhecer SP. Fomos ao centro e comemos em um restaurante japonês no bairro da Liberdade (ele me disse que adora peixe e comida japonesa, mas como morava bem no centro dos Estados Unidos, tinha que comer essas coisas quando viajava).  Na terça rolou uma entrevista coletiva no hotel dele. As coisas estavam corridas e quase a exclusiva do pessoal do Universo HQ foi cancelada, mas dei um jeito dela acontecer rapidinho, antes das outras entrevistas. O Sidney Gusman ainda não trabalhava comigo na Conrad e éramos apenas conhecidos nessa época.

gaimancassiusE a noite deste mesmo dia rolou o ponto alto da passagem de Gaiman por aqui, o evento na FNAC. Ele fez uma leitura apresentando o livro Deuses Americanos, que sairia em breve, e depois deu autógrafos. Quase 1300 pessoas passaram pelo local, o que obrigou a livraria a fechar as portas às 20h30min, muito antes do horário normal. A fila ocupava todos os 3 andares do prédio e continuava pela rua. E foram mais de 2000 autógrafos, porque tinha gente que entrava duas vezes na fila, pedia para autografar o gibi, o livro e até partes do corpo. Tentamos controlar o máximo possível, pois ele estava cansado e foi ficando esgotado e sem voz ao longo da noite.

Fizemos uma pausa e perguntei a ele se queria que déssemos um jeito naquilo, que parássemos, e a resposta foi: “De jeito nenhum. Se as pessoas tiveram o trabalho de vir até aqui, nada mais justo que eu autografe até o último da fila”. E foi o que ele fez, ficando lá até um pouco depois da meia-noite, além de pegar o microfone a um dado momento e se desculpar com os fãs por estar quase sem voz.

Na quarta a tarde ele iria embora, mas pela manhã compareceu a Conrad para conhecer a editora, o pessoal e dar uma exclusiva para nós. E por causa de sua falta de voz, aconteceu algo engraçado. Vejam o que ele escreveu sobre este dia em seu blog:

Passei o dia na Conrad, minha editora no Brasil. Tive uma ccoletiva de imprensa antes do almoço, apesar de estar totalmente sem voz. Sem voz mesmo. Nada. Zero. Quando abri minha boca foi isso o que saiu “… ….”


A coletiva de imprensa só funcionou porque Cassius, meu editor da Conrad, passou os últimos 4 dias comigo como meu tradutor e guia. Ele sentou perto de mim em todas as sessões de autógrafos desde que eu cheguei ao Brasil e ouviu todas as respostas que dei às perguntas das pessoas. Ele aprendeu, basicamente, quando me fazem sempre a mesma pergunta, eu sempre dou a mesma resposta, ou equivalente. E ele ouviu sempre as mesmas respostas, várias e várias vezes.


Então na coletiva de imprensa me perguntaram algo como “Você está trabalhando com Terry Gilliam no filme baseado no livro Good Omens (Belas Maldições)?” e eu poderia simplesmente virar para Cassius e sussurrar em seu ouvido como o poderoso chefão (com aquele sorriso), ou um grande e malévolo boneco de marionete (de mim mesmo), e dizer “Pode responder essa?” e ele iria repetir as coisas que ele me ouviu dizer sempre que as pessoas me perguntavam isso – e ele diria em Português, que é mais do que eu poderia
fazer.


Então autografei vários livros para as pessoas na Conrad, saí e comi bastante peixe cru no almoço, e fui com Cassius para o aeroporto, onde nós organizamos as coisas que as pessoas me ofereceram em CDS e cartas (e eu aceitei) e outras coisas mais (que ele empacotou para mim). Ele me ajudou a comprar a passagem, e me levou para a revista, onde eu parava, sorria e dizia “…….” toda hora. Era pra ser “Obrigado” – que é como se agradece em Português, mas nada saía.

Além do que ele contou, antes de ir embora, fomos na livraria do aeroporto, onde ele comprou um livro em inglês de presente para mim chamado Father Brown Stories de G.K. Chester, pois eu tinha falado que gostava de histórias policiais. E ainda fez uma dedicatória dizendo que era um presente do “Poderoso Chefão”.

Durante os cinco dias que estive com ele, Gaiman foi sempre o mesmo, calmo, gentil, atencioso e gente boníssima. O jeito que você o vê nas entrevistas e sessões de autógrafos é o jeito que ele é. E nada melhor para descrevê-lo do que o Sidney Gusman escreveu sobre a noite da FNAC: “Definitivamente, não é à toa que Neil Gaiman faz tanto sucesso! Seu carisma é inacreditável! Ele conversa com todas as pessoas sempre com a mesma atenção e jamais encerra suas sessões de autógrafos até que o último fã seja atendido. Em suma, um grande profissional, uma grande pessoa!”

Eu voltaria a me encontrar com ele na Flip, no ano passado, mas esta é uma outra história para um outro sonho.

Um comentário em “IMPERIUS CASSIUS – ENCONTRO COM O MESTRE DOS SONHOS – PARTE 1

  • 24 de julho de 2009 em 21:47
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    Muito bom o relato Cassius, Gaiman é mesmo genial um verdadeiro exemplo a ser seguido em vários aspectos, aguardando a segunda parte…..

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  • 26 de julho de 2009 em 02:25
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    Gaiman é um exemplo de bom senso sobre como se tratar a fama e os fans. Não é afetado nem se deixa levar, não perde a linha, não faz exigências imbecis, enfim, todo mundo que fala dele atesta que de estrela o cara não tem nada. Quem dera mais artistas fossem assim. Fico aguardando a segunda parte dessa história.

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  • 26 de julho de 2009 em 21:03
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    Ótimo relato Cassius. Tive o prazer de encontrá-lo e ganhar um autógrafo dele, em minha Sandman número 1, e trocar poucas palavras com ele na Bienal do livro em 2001. Este encontro de 2 minutos ficou marcado em minha memória, imagine o seu de 5 dias.
    É um grande artista e o escritor da minha série favorita.

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