Impulso HQ! Encruzilhada

Por Alexandre Manoel

 Encruzilhada, segundo álbum de Marcelo d’Salete, reúne 5 HQs curtas de temáticas urbanas, como é tradicional na obra deste paulista.

 Cada história nos apresenta uma faceta da vida nas periferias das cidades: o dia a dia de garotos de rua; a violência escancarada e impune destas regiões; os amores platônicos nas janelas de conjuntos habitacionais; a dura rotina dos camelôs e todo o universo que envolve as quadrilhas de roubos de carros.

 Mas reduzir a esses elementos os assuntos abordados nas HQs de d’Salete seria menosprezar todo o universo que compõe suas narrativas. Chega ser até surpreendente o modo como o autor consegue juntar, de forma natural e coerente, as mais diversas situações e personagens num espaço tão curto como suas HQs.

Do mesmo modo, engana-se quem acha que suas histórias são carregadas apenas de agonia e solidão. Aqui há espaço para a tradicional religiosidade dos nordestinos, a dura rotina dos seguranças, o drama das meninas que são mães na adolescência, as idosas que têm apenas seus animais de estimação como companhia, a inescrupulosidade de comerciantes e clientes que querem levar vantagem em tudo, os decadentes pontos comerciais nos quais ainda são possíveis jogar fliperama (em plena era dos Xboxs e Playstations da vida) e todas aquelas desgraças que estamos acostumados a assistir nos jornais televisivos nos finais de tarde. Por outro lado, também há espaço para demonstrações de afeto, amizade, heroísmo, justiça e esperança.

As histórias de d’Salete não estão aqui para defender os pobres e oprimidos, colocando-os como heróis ou vítimas, tampouco servem para propagar os estereótipos violentos das periferias ou chocar as pessoas com o excesso de dramas e infortúnios.

O grande diferencial de suas histórias é que elas são uma espécie de crônicas, um relato, fiel e isento, de causos que ocorrem nessas regiões distantes e quase sempre esquecidas. Se o artista, como dizem, é a antena de seu tempo, d’Salete prova ser o quadrinista em maior sintonia com os subúrbios brasileiros.

Uma grande novidade em sua obra é que, aqui, sua visão crítica se faz mais presente. Principalmente em relação às grandes corporações financeiras, que constantemente põem o mundo em crise – e cujas maiores vítimas são as pessoas simples, justamente os personagens principais de suas HQs. Neste álbum, grandes marcas como Motorola e Adidas (apenas para ficar em dois exemplos) são presença constante, sempre sufocando os personagens nos quadros e tomando-lhes os lugares de maior destaque nas composições.

 Nem mesmo famosas marcas dos quadrinhos e do cinema escapam de sua crítica.

Sua arte continua com um traço sujo que não se preocupa em ser preciso ou elegante e suas texturas que deixam ainda mais ásperas as histórias narradas. As páginas abusam de quadros pequenos e de margens negras. A narrativa segue uma linha mais poética, fragmentando demasiadamente o tempo nas histórias. E tudo isso contribui para o clima denso, claustrofóbico e perturbador da edição.

 Ai, o leitor que acompanhou a resenha até aqui e percebeu toda essa rasgação de ceda que eu escrevi, vai pensar que esta é uma das melhores obras que eu li esse ano. O fato curioso é que não é bem assim…

 Se por um lado as características de sua arte e narrativa demonstram a evolução do artista, por outro acabam deixando as histórias confusas e complexas de mais obrigando-nos a relê-las algumas vezes para percebermos a diferença entre os personagens, suas atitudes, seus papéis dentro da narrativa ou a grande passagem do tempo entre uma situação e outra.

 E isso acaba tirando um pouco – ou muito, dependendo do seu gosto – o prazer da leitura e diminuindo o grande potencial que as histórias demonstram ter.

 Uma pena.

Encruzilhada
Autor: Marcelo d’Salete
Leya/Barba Negra
120 páginas
Data: Agosto de 2011
R$ 29,90

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