A Condessa Sangrenta / Resenha

Por Alexandre Callari, do Pipoca e Nanquim.

A Condessa Elizabete Bathory foi uma nobre húngara que viveu no século XVII e ficou conhecida como uma das figuras mais sangrentas e perturbadas de sua época. Os crimes de Bathory foram tão terríveis, que lhe valeram a alcunha de Condessa Sangrenta, e anos depois serviram de inspiração para Bram Stocker escrever seu romance Drácula (outra fonte foi o personagem Vlad Tepes).

A_CONDESSA_SANGRENTA_1304424566PObcecada pela própria beleza e pelo sonho da juventude eterna, e convencida de que a resposta para ambas as questões estava no sangue inocente, a Condessa torturou e matou aproximadamente 650 jovens entre camponesas, serviçais e donzelas. Seu objetivo? Permanecer para sempre jovem banhando-se no sangue das vítimas. Parece clichê? Quando paramos para pensar que a história foi real, todo conceito de clichê cai por terra.

O selo Tordesilhas, um braço da Alaúde Editorial, traz ao Brasil uma verdadeira obra prima que merece ser descoberta. Escrito pela argentina Alejandra Pizarnik (1936-1972), A Condessa Sangrenta é uma obra tão instigante, quanto perturbadora, que apresenta de forma nua e crua, e com detalhes viscerais, as formas de torturas preferidas da personagem central, entremeadas por dados biográficos e muito lirismo. É um relato assombroso.

Três décadas de torturas e matanças ininterruptas!

É disso que estamos falando quando pensamos em Bathory; um feito bizarro dificilmente igualado mesmo pelas personalidades mais cruéis da história da raça humana. A Condessa só foi impedida de continuar com seus atos homicidas quando a loucura nublou os limites que marcavam sua própria autossobrevivência e ela começar a matar, além da plebe, jovens filhas de nobres. Mexendo no vespeiro errado, uma investigação foi aberta, que culminou na prisão da mulher e sua condenação, em 1611.

O texto acompanha todas essas passagens de forma singular. Não é uma narração, não é um poema, não é texto científico, não é um ensaio, mas um amálgama entre todas as formas. Em dado momento, o lirismo impressiona, em outro, a exatidão dos fatos, num terceiro, a autora parece estar expressando sua própria visão. Ainda assim, ela nunca julga!

O leitor pode se sentir incomodado nos momentos em que as formas de tortura são descritas em detalhes, assim como inquietar-se ao imaginar o comportamento trivial com que Bathory tratava as maiores brutalidades. Mas seu cotidiano é tão horrível quanto sedutor. Ao fugir da armadilha de julgar e condenar as ações da Condessa, o que teria sido uma solução fácil e possível recurso utilizado por um escritor de menor envergadura, a autora cria um elo entre personagem e leitor raramente obtido. Tudo vemos, tudo sabemos, tudo presenciamos; com o frescor de um documento tremendamente bem narrado, sem o pigarro desconfortável que fica na garganta, causado por textos demasiadamente técnicos.

Quem espera uma biografia precisa e acurada, poderá se surpreender logo no primeiro capítulo. Os fatos estão lá, é verdade, mas eles servem ao bem de contar a história – não são eles que limitam a prosa, mas sim a prosa que os envolve em uma teia deliciosa e aterrorizante. Este livro – e seu desejo de lê-lo e relê-lo – pode ser comparado à famosa imagem dos carros passando devagar para ver um acidente. É o recôncavo mais profundo de nossa mente que é afetado por esse desejo.

O texto de Alejandra é vivo e poderoso; as palavras parecem saltar das páginas e envolver o leitor com força e vigor. Referências históricas como o casamento da Condessa e menções às feiticeiras que a acompanhavam, servem para situar os acontecimentos e traçar uma grosseira linha do tempo, mas é só. Embora exista a ânsia por saber mais sobre ela, A Condessa Sangrenta não nos torna reféns dos fatos.

Em determinado momento, o leitor odeia Bathory. Mas ele não pode negar o fascínio que sente por ela. Estar em uma sala fechada com gente como Charles Manson, Dr. Morte e Pedro Alonzo Lopez, é uma proposta que causa em medida igual sentimentos distintos como asco, repugnância, medo, horror, curiosidade, atração. Trata-se dos mecanismos ocultos que movem a mente humana em seu estado mais disfuncional. Como montar um quebra-cabeça de alguém que comete uma atrocidade tamanha como Bathory, sem categorizá-la displicentemente de “monstro”, e perder assim, toda a profundidade que uma persona como essa nos oferece? A resposta está no texto de Alejandra.

A Condessa Sangrenta não é uma HQ, mas sim um livro ilustrado , parecido com o aclamado Os Caçadores de Sonhos, de Gaiman e Amano, uma das histórias mais consagradas de Sandman. O ilustrador Santiago Caruso cria um trabalho notável, de encher os olhos a cada página virada, tanto pela beleza do traço, quanto pela criatividade das imagens. É uma perfeita união entre narrativa e arte.

A Tordesilhas também está de parabéns pelo capricho técnico que dispensou ao material. Impresso em papel cuchê fosco 150 gramas, capa dura, totalmente a cores e com uma luva externa recobrindo a capa, o álbum é de encher os olhos. O posfácio do jornalista João Silvério Trevisan excede o escopo do texto e faz pensar não apenas sobre a barbárie de antigamente, cometida por gente como Bathory, mas a barbárie moderna e os rumos que nossa civilização tomou. A tradutora Maria Paula Gurgel Ribeiro também faz um excelente trabalho na adaptação do original. A única coisa que senti falta foi uma biografia mais bem elaborada da Condessa, pois poucos têm acesso à vida dela de forma mais completa. Mas sem sombra de dúvida, é um grande lançamento, e uma grande plataforma para conhecer essa sedutora e terrível personalidade. Como dica adicional, ficam os filmes Eterno, A Condessa e Bathory, para quem quiser se familiarizar mais com a história.

Um comentário em “A Condessa Sangrenta / Resenha

  • 13 de março de 2013 em 23:47
    Permalink

    Muito interessante. Mais um pra lista de desejados.

    Coincidentemente, na semana passada, devido a estar fazendo uma faxina, estava relendo um item da minha coleção, “A Condessa Vermelha – Erzsébet Bàthory”, de George Pichard e J.M. Lo Duca, uma HQ de luxo sobre a tal condessa que a Martins Fontes lançou em 1987 e é maravilhosa. Esta é baseada no romance “Ewige Jugend” de Leopold von Sacher-Masoch. Quais referências esse livro toma como base?

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