Thor: Por Asgard / Resenha 2

Por Vitor Azambuja, do site parceiro Quadrim.

Quadrim Comenta – Thor: Por Asgard
Autores: Robert Rodi (roteiro) e Simone Bianchi (arte)
Editora: Panini Comics

Escrita pelo roteirista da aclamada minissérie “Loki” (recentemente republicada em um bem-vindo encadernado de capa dura), Thor: Por Asgard  tem tudo para agradar em cheio aos fãs de fantasia, RPG, thrillers políticos e “Lost”. Confuso? Explico. A história começa com Thor conduzindo guerreiros asgardianos em uma batalha para “reduzir Jutunheim a pó”. O deus do trovão, porém, hesita ao perceber que os famigerados Gigantes de Gelo utilizaram mulheres e crianças como escudo humano. A hesitação não dura muito, e logo Thor toma uma decisão drástica: atacar impiedosamente, mesmo que o efeito colateral seja a morte de alguns inocentes. O início é emblemático, e mostra logo de cara algo importante para se entender a história: esse não é o Thor a que estamos acostumados nas aventuras tradicionais do Universo Marvel. Embora o filho de Odin explique que deixar de atacar poderia incentivar outros inimigos a utilizar tática semelhante, a vitória deixa um gosto amargo nos asgardianos. Diferentemente dos costumeiros festejos após a batalha, os guerreiros retornam para casa amargurados, exaustos e sem orgulho do que fizeram.

 

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Ao chegar a Asgard, entendemos que a Cidade Dourada já não é tão reluzente. Um inverno se abateu há mais de dois anos e toda a paisagem é coberta pelo frio e pelo gelo. A fome começa a assolar os moradores da cidade, o que só é agravado pelo clima de rebelião que começa a tomar conta do reino. Reino que agora é regido por Thor, pois Odin foi vagar por Midgard (Terra) para descobrir a causa do inverno, e Balder (o regente por excelência) foi assassinado traiçoeiramente por Loki (cujo paradeiro é desconhecido). Mas mesmo a autoridade de Thor vai sendo minada aos poucos, pois há uma ruptura se formando na cidade, representada por Tyr (promovido a homem de confiança de Thor no lugar de Balder) e Sif (que funciona como contraponto na história). O primeiro acredita na solução pela força, enquanto a segunda representa a busca pela diplomacia e o inevitável peso burocrático de gerir um império. Como desgraça pouca é bobagem, Thor ainda recebe a notícia de que o inverno impediu o crescimento dos frutos dourados que concedem aos deuses sua imortalidade, o que nada menos é do que um presságio do Ragnarok (o apocalipse nórdico com o qual os fãs de RPG já estão acostumados). Ao final da primeira edição, a história deixa claro que as coisas não são nada boas mesmo: Thor já não consegue sequer erguer o Mjolnir, o que indica que ele não é digno do papel que atualmente ocupa.

Nesse clima de pessimismo constante, Rodi conseguiu desenvolver uma história bastante adulta e contemporânea, com uma abordagem mais crítica à mitologia que a Marvel transformou em aventuras de super-heróis. A crítica, porém, não está nas origens do mito, mas sim na analogia que Rodi faz com o mundo moderno. Na história, Asgard é mostrada como a capital de um império que subjuga os nove mundos através da força, justificando tais atos com a desculpa de beneficiar os conquistados ao lhes trazer a arte, a música, a cultura e, enfim, seu modo de vida asgardiano. Mas, com Asgard enfraquecida pelo inverno e por suas disputas internas, todos os mundos (inclusive Hel) rebelam-se contra ela, dividindo os exércitos da cidade, privando-a de seus guerreiros, e causando a ira dos cidadãos famintos e cansados de ver seus governantes perderem tempo em guerras distantes. Posso estar voando muito mais alto do que a história permite, mas não pude deixar de notar as semelhanças com a realidade da “cidade dourada” dos dias de hoje, os Estados Unidos. É difícil mesmo ignorar a comparação entre o inverno “dos últimos dois anos” e a crise econômica deflagrada em 2008 nos EUA (a minissérie saiu lá fora em 2010), entre as batalhas em mundos distantes e como os americanos ficaram enfraquecidos após dividir seu exército entre Afeganistão e Iraque, ou ainda as semelhanças explícitas entre o expansionismo asgardiano e o imperialismo americano do século XX (ambos justificados pela noção arcaica de “destino manifesto”). Oras, Rodi colocou até mesmo um homem-bomba cometendo um ataque suicida num marco importante da cidade. Não dá pra ficar mais óbvio que isso, e aí está o agrado aos fãs de uma boa intriga política.

 

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Se o roteiro de Rodi é interessante, a arte de Simone Bianchi não fica por menos. Bianchi é um artista habilidoso, com influências clássicas (clássicas mesmo, renascentistas até), que consegue dar profundidade à figura humana, explorar ângulos pouco utilizados e desenhar Thor em todas as poses épicas possíveis. Como todo artista virtuoso, Bianchi ousa também na construção de páginas, sobrepondo quadros e desenhos de maneira longe da tradicional. Isso, porém, atrapalha um pouco a narrativa. Por vezes a ação fica confusa e alguns estranhos espaços em branco surgem na página, como se a calha (aquele “vazio” que separa os quadros nas HQs) fosse colocada deformada no meio do desenho. Sem o compromisso de acompanhar a narrativa, os desenhos de Bianchi seriam fantásticos (as capas e as splash pages são lindas), mas uma composição mais convencional dos quadros teria valorizado mais o bom roteiro de Rodi. Me incomodou também o excesso de closes, já que Bianchi foca mais na figura humana do que nos cenários. Em alguns momentos o busto dos personagens preenche as páginas e não sobra muito espaço para mostrar o que está acontecendo ao redor. De qualquer forma, a ambientação, os figurinos e os designs de personagens criados por Bianchi dão um charme de fantasia medieval à edição, quase como se você estivesse lendo uma esmerada história em quadrinhos de World of Warcraft. Pode desagradar aos fãs do Thor de Walt Simonson ou Oliver Copiel, mas com certeza tem seu público. Para encerrar sobre a arte, cabe aqui a menção honrosa às belíssimas cores de Simone Peruzzi, que acerta nos tons para preencher o lápis de Bianchi e retratar o clima sombrio que se abate sobre Asgard.

Já a edição brasileira também é digna de nota. Trabalho primoroso de capa, acabamento interno, letras, e material extra. Tanto capricho justifica um pouco o valor cobrado pela edição, mas o preço ainda é meio salgado, especialmente se considerarmos que não é uma história lá muito consagrada do deus do trovão. Ainda assim, a Panini acertou ao trazer essa edição para fazer par com a já citada republicação da minissérie “Loki”.

Ah, faltou explicar como a história agrada aos fãs de “Lost”, certo? Bom, sem dar muitos spoilers, cabe alertar ao leitor que a edição termina com um gancho para uma possível sequência (até o momento não anunciada). Aliás, gancho não, um guindaste inteiro. Quando a minissérie terminou de ser publicada lá fora as pessoas devem ter se perguntado se haveria uma sétima edição secreta ou coisa assim, já que quase todos os problemas e situações criados na história não se resolvem no final. Nada é explicado. A história não conta para o leitor a origem do infortúnio de Asgard, as enigmáticas visões que Thor tem de Balder, as epifanias de Odin e do próprio Thor, e muito menos a identidade do antagonista que se revela nas últimas páginas.

 

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Asgard ainda está em guerra com os povos conquistados e Odin sai do seu paradeiro atual para ir buscar sabe-se lá o que e sabe-se lá onde. A única conclusão que você vai encontrar é para o drama do Mjolnir, que finalmente é erguido por Thor ao final da edição (provando ser um líder digno). Todavia, com tantas pontas deixadas soltas, e sem a perspectiva de uma continuação em breve, fica a sensação de que você acabou de ler seis edições (da minissérie original) e não chegou a lugar nenhum. Mais ou menos como foram as seis temporadas de “Lost”, saca? Se você é da turma que se contentou com o final de “Lost”, talvez se contente com esse final também.

Ver a primeira resenha.

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