[Resenha] Dupin, de Leandro Melite

Publicada originalmente no blog parceiro Impulso HQ


Quando falamos em Edgar Allan Poe, as palavras mistério e macabro aparecem na conversa quase que imediatamente. Afinal, os contos desse autor são reconhecido até hoje por chocar e incomodar seus leitores. Por isso, o quadrinista Leandro Melite encarou um grande desafio ao recontar “Os Assassinatos da Rua Morgue” em Dupin, álbum lançado em novembro de 2015 pela editora Zarabatana Books.

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Como entrega o nome da obra, o quadrinho é inspirado nas aventuras do detetive C. Auguste Dupin, criado por Edgar Allan Poe em 1841. O quadrinista trouxe a trama do clássico para os dias de hoje e transformou o protagonista do enredo e seu parceiro em crianças: dois primos com passados obscuros, que investigam um crime macabro noticiado em programas policiais

Nessa história somos apresentados a Gustave e Edward, que se reencontram devido ao falecimento do pai do primeiro, obrigando-o a vir morar com os parentes no Brasil. O fato de não tratarmos mais de detetives renomados, como no conto original, mas sim de meninos, praticamente crianças, surpreende o leitor.

Então teremos uma versão mais leve dos contos de Poe com cenários menos macabros, certo? Errado. Afinal, não é comum um menino ficar obcecado com um caso, a princípio resolvido, de um assassinato.

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A arte de Melite, em preto e branco juntamente com os quadros dispostos de forma desalinhada já causam um desconforto inicial no leitor. Os traços sujos e disformes instigam o mistério e incomoda até nos leitores mais ousados.

Ambientando-o nesse cenário, que será marcado por algo além de um caso detetivesco, somos envolvidos pelo mundo dos personagens e seus passados obscuros. Melite apresenta uma releitura interessante quanto aos Assassinatos da Rua Morgue com elaborações diversificada dos personagens que são complexos e instáveis. O que se esconde por trás de umas máscara de paz e desinteresse?

O desenvolvimento dos personagens pode ser visto, por exemplo, no caso de Edward, o primo brasileiro que sempre se enxerga como inferior a Gustave devido ao raciocínio rápido do mesmo.

A cena com os bonecos para recriar os depoimentos do crime mostram ao leitor que não estamos lidando com seres de outro mundo, ainda são meninos que usam da imaginação para tentar solucionar esse misterioso assassinato.

Afinal, o assassinato não é o foco história, tão pouco a solução do caso. A trama enfrentada por Edward e Gustave, apesar de impulsionada por isso, devido à complexidade dos personagens, nos prende e nos envolve com as diferentes facetas dos personagens, que por vezes nos fazem duvidar até mesmo se o caso será solucionado.

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Esses passados vêm à tona nas mais diversas situações, seja em meio a tempestades ou quando os personagens se encontram em situações de estresse. Assim somos apresentados as fragilidades, inseguranças e distúrbios dos mesmos. Tornando-os imprevisíveis e nos prendendo a narrativa.

Dessa vez, os nossos parceiros da Comix Book Shop decidiram por nos enviar uma história um pouco mais sombria, afinal Dupin, está longe de ser um conto calmo.

Dupin representa o ponto mais alto de Melite como escritor e desenhista: mesmo preocupado com as percepções de seus leitores, ele não tira o pé do acelerador ao criar uma trama com diversos níveis de leitura e vários simbolismos.

Super indicado para você ter na sua coleção.

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Zarabatana Books
Autor (roteiro e arte): Leandro Melite
Preto e branco
Lombada quadrada
208 páginas
19 x 28 cm
R$ 70,00

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