Asterios Polyp / Resenha

Por Bruno Zago, do site parceiro Pipoca e Nanquim.

Brilhante. Sensacional. Obra-prima. Isso é o mínimo que tenho a dizer de Asterios Polyp, publicado no Brasil pela editora Quadrinhos na Cia.

David Mazzucchelli, meio sumido desde o trabalho anterior, Cidade de Vidro (lançado no Brasil pela Via Lettera), concebeu essa graphic novel que logo ao ser publicada foi imediatamente considerada uma das mais importantes do mercado norte-americano, arrebatando os prêmios Eisner e Harvey. Posicionamento mais do que merecido, o autor soube explorar como poucos todas as possibilidades narrativas que se pode extrair de uma história em quadrinhos para enriquecer a trama, se colocando no mesmo nível de Jimmy Corrigan, e arrisco dizer, até mesmo de Maus.

Asterios Polyp é um renomado arquiteto, um profissional estimado por projetos incríveis, mas que nunca chegaram a ser construídos. Ele é professor em uma universidade, autor de alguns livros e dono de uma personalidade sufocante, que enxerga nos outros uma forma de relacionar-se consigo mesmo. Está sempre destilando conhecimento e informação para os demais, inflexível quanto a admitir um erro ou mudar de opinião, característica que se torna insuportável com o tempo e leva sua esposa, a asiática Hana Sonnenschein, a abandoná-lo e seguir com sua própria vida. Esse fato abala a estrutura que sustentava o pedestal de Asterios, tornando-o deprimido e desleixado, trancafiado em seu próprio mundo. Então, no dia em que completou 50 anos de idade, um raio desceu dos céus e acertou o edifício de seu apartamento, incendiando todos os bens que não escaparam consigo. A partir daí ele inicia uma jornada de transformação e evolução em busca de uma nova realidade.

 

 

A história é conduzida com duplos capítulos, um mostrando seu passado com a esposa, o outro seu presente em modificação, sempre abertos por uma página de um único quadro que resume e representa a cerne do que virá. A escolha do narrador da trama já é inusitada: o irmão gêmeo de Asterios, Ignazio Polyp, que morreu antes de nascer. Ele conversa com o leitor e admite que não existe, exceto na vida de seu egocêntrico irmão. Sua “presença” pontua a crença mais difundida por Asterios, a dualidade. Para o protagonista, tudo é preto e branco, dois lados de uma mesma moeda, opostos que não podem existir um sem o outro, filosofia que abre margem para excelentes diálogos. O personagem não consegue escapar do fantasma de seu finado gêmeo, os dois deviam ter nascido, no entanto um morreu, 50% de chance para ambos e justo ele sobreviveu, por quê? Essa e outras questões semelhantes atormentam sua mente desde a infância, e acabam colocando a dupla lado a lado em paragens oníricas para longas conversas.

A questão da dualidade está presente ao longo de toda a obra, tratada abertamente em discursos e também em pequenas pistas, como o número de capítulos, a variação nas cores frescas e mornas e o personagem sempre desenhado de perfil. Asterios nunca encara o leitor, como se seu orgulho inflexível não permita isso. Ele está sempre com o rosto voltado para a esquerda ou direita, salvo umas três ou quatro ocasiões em que o vemos se virar para encarar um fato importante. Esse detalhe, que para leitores desatentos certamente passará batido, ilustra momentos chaves da HQ, marca uma transformação, o rompimento de uma algema.

Como já mencionei, a própria odisseia de Asterios é apresentada de forma dual. Nas cenas do passado, ele é megalomaníaco, rígido, impõe sua opinião em qualquer assunto como verdade absoluta. Na história presente, testemunhamos seu crescimento, erigido de modo natural ao passo das circunstâncias. Ele não abandona suas ideias, simplesmente compreende que as opiniões são pessoais. Acompanhamos essa mudança principalmente por meio das cenas com a esposa, bem introvertida, e depois com a mulher do mecânico que lhe concede hospedagem, uma pessoa de crenças extremamente contrárias as suas. Com a primeira ele não percebe que, por conta de seu jeito tirano, é o óleo no copo d’água que os une, já com a segunda assume um comportamento mais passional. É genial o modo como os desenhos e as cores contribuem para esses momentos, com Asterios desenhado como um projeto de formas geométricas azuis e Hana como um calor de linhas rosadas, ora mesclados, ora distantes. Sensacional!

Para todos os personagens o autor empregou traços e cores meio diferentes, adequado à personalidade de cada um. A cabeça de Asterios tem como base um semicírculo que termina em seu nariz, Hana tem linhas leves e soltas, com olhos grandes, o amigo mecânico não possui contorno em sua base, a esposa desse é a única com predominância no amarelo e por aí vai, todos com estilo bastante caricato, bem diferente do utilizado pelo autor em trabalhos junto de Frank Miller, como Batman: Ano Um e A Queda de Murdock, o que atesta sua versatilidade.

Os balões e a tipologia também são personalizados, o casal central contrasta até nisso, ele com balões quadrados e ela com redondos (lindíssimo o efeito que isso resulta no final). Balões cheios de curvas e arabescos, tipos com e sem serifas, caligrafia de fôrma e de mão, tudo harmoniosamente combinando para atribuir mais significado ao todo. Aqui cabe parabenizar o trabalho que a legendária letrista Lilian Mitsunaga desempenhou para a Quadrinhos na Cia., a edição brasileira não perde em nada para a original. Já aproveito para elogiar o trabalho inteiro da editora, tradução excelente e impressão de primeira, feito na China totalmente em papel reciclado, seguindo o modelo dos exemplares norte-americanos.

Mas a versatilidade de Mazzucchelli vai muito além do estilo de desenho. Em Asterios Polyp ele coloca os personagens para discutir a cerca dos mais variados assuntos: politica, religião, música, arquitetura, natureza, psicologia, mitologia, filosofia e até relógios e meteoros, rendendo diálogos inteligentíssimos e, para nosso alívio, gostosos de serem lidos. Não se trata de uma obra densa, não é intelectual a ponto de ser chato, é complexo, sim, muito, sem a menor dúvida, mas não intimidador ou incompreensível. Eu, por exemplo, li de uma tacada só, não consegui desgrudar do encadernado depois que comecei. A história é muito cativante. Fiz questão de mencionar isso porque sabemos que não raras vezes títulos desse nível oferecem uma experiência difícil, de leitura arrastada, mas fique tranquilo que esse não é o caso aqui.

A obra foi concebida minuciosamente, com muito zelo e sem pressa. São mais de 300 páginas e nenhuma é sequer parecida com a outra. Mazzucchelli foi ao extremo com o experimentalismo, são tantas sacadas que fica impossível enumerar e citar todas. A diagramação é uma das mais ousadas que a nona arte já viu, de fazer quem é do meio prantear-se “como nunca pensei nisso antes?”. Os elementos de cada página tem um bom motivo para estar ali, nada é gratuito, seja o menor objeto de um cenário ou a posição de um personagem. Por exemplo, as mudanças ocorridas com o arquiteto são evidenciadas até mesmo em suas pequenas atitudes, como quando ele mata um mosquito que encontra descanso em seu rosto, logo que se apropinqua à nova casa, e tempos depois já não se incomoda mais com o repouso do inseto, ou quando ele está dirigindo um carro que se alimenta de energia solar, o único em uma longa sequência de transito com um veículo que não emite fumaça.

A rica combinação entre texto e arte faz de Asterios Polyp uma HQ que deve ser lida várias vezes, do contrário é impossível absorver a história com ciência de todos os detalhes. Na primeira vez você pega apenas a essência da coisa, mas para aproveitá-la em sua plenitude é necessário revisitá-la repetidamente.

Todos os nomes tem um significado, cada conversa contribui para o saldo final, tudo está minuciosamente amarrado. O que fica sem sentido no início, ganha significado mais tarde. Todas as cenas são carregadas de referências. Buscando um dos adjetivos que escrevi na introdução dessa resenha, é brilhante! Preciso mencionar uma passagem do começo do livro, quando Asterios sai sem rumo iniciando sua jornada, a descida ao metrô de Nova Iorque é como uma caminhada pelo inferno, situação de total transtorno e sofrimento para o personagem, reprisada de outra forma mais a frente, em um de seus sonhos. Fan-tás-tico! Queria poder contar mais partes assim, a HQ tem muitas, mas estragaria a experiência de vocês.

Não ligo de me repetir nos comentários, reforço que se trata de uma obra-prima singular dos quadrinhos, mais do que leitura obrigatória, uma coleção sem Asterios Polyp na estante passa a não merecer respeito. Compre, leia, releia, releia de novo, e de novo, aproveite cada tracinho dessa graphic novel, pois David Mazzucchelli se esforçou para nos oferecer uma obra completa em todos os sentidos. Nota 10!

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