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Postado por Goncalo Junior

MEMÓRIA HQ – VOCÊ SABE QUEM FOI MIGUEL PENTEADO?

dez 7, 2009 | 3

SURFISTA_PRATEADO_N9Idealista e sonhador, certamente Miguel Penteado foi o nome mais importante da luta pelo reconhecimento da profissão de artista de histórias em quadrinhos no Brasil. Desenhista e pintor de mão cheia – fez inúmeras capas de gibis de terror da Editora La Selva na década de 1950 –, com longa passagem pelo mundo gráfico paulistano, ele abdicou do traço para se tornar editor de gibi.

Em 1959, depois de trabalhar nas editoras La Selva e Novo Mundo, com seu grande amigo Jayme Cortez (1926-1987), fundou a lendária Editora Continental, depois rebatizada de Outubro e, por último, Taíka. Os dois e vários outros sócios minoritários ligados às histórias em quadrinhos transformaram o negócio numa trincheira para o quadrinho nacional. Coube à Continental, aliás, ainda no primeiro ano de vida, lançar a revista Bidu, que marcou a estréia de Maurício de Sousa nas bancas de todo país com uma publicação própria.

Maurício e os colegas, sob a orquestração de Penteado, então um insuspeito e discreto militante do Partido Comunista Brasileiro, criaram o movimento pela nacionalização dos quadrinhos que levou ao presidente Jânio Quadros (1917-1992), em 1961, uma proposta de lei que obrigaria as editoras a publicarem 66% de material nacional em seus gibis.

Era a chamada lei dos dois terços. Jânio renunciou antes de baixar a lei, que coube a João Goulart sua decretação, em setembro de 1963. Com o golpe militar de abril de 1964, Jango foi embora para o exílio e Miguel se refugiou no mundo das gráficas. A lei jamais seria regulamentada – os editores entraram com uma ação de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal – e o velho comunista lamentaria para sempre ter morrido com seus companheiros na praia.

Miguel era um autodidata de múltiplos talentos. Criou gosto pela leitura por circunstância de uma infância difícil. Obrigado a vender jornais e revistas pelas ruas de São Paulo para ajudar a mãe, depois da morte do pai e do irmão mais velho na revolução de 1924, ele despertou seu gosto pela leitura de revistas, apesar de não ter passado da segunda série primária.

Não só lia o que vendia como comprava ou pegava emprestado de amigos. Uma de suas preferidas era a revista argentina A Crítica, que misturava humor e crítica político-social pelo traço dos melhores desenhistas do país e que era importada por um distribuidor de São Paulo. A publicação não incluía quadrinhos, mas Miguel era fascinado pelas caricaturas e charges que apareciam em suas páginas.

Sua aproximação com o mundo gráfico aconteceu quando ele trabalhava no Foto Labor, na região central de São Paulo. Ali, conheceu Cortez, em 1947, que sempre ia lá revelar e ampliar fotos. O local possuía uma velha máquina Multilith, que ele aprendeu a usar em pequenos trabalhos gráficos para terceiros. O contato com o jovem desenhista português foi tão animador que ele se empolgou com a possibilidade de se tornar um desenhista profissional de gibis.

Tudo aconteceu tão rápido, graças ao fato de já ser um desenhista amador, que cerca de quatro meses depois Miguel já fazia suas primeiras histórias em quadrinhos. Estimulado por Cortez, ele esperava conseguir algum espaço nas populares revistas de pinups, principalmente na Bom Humor, da La Selva, e, por isso, produziu muitos desenhos de belas garotas.

Investiu, então, suas economias na contratação de algumas garotas para fazerem fotos seminuas que ele próprio tirava. Em seguida, reproduziu as poses em desenho e montou uma folhinha de calendário. Surpresa! Deu certo: Miguel, que ganhava pouco mais de 1,2 mil réis por mês, vendeu o projeto da folhinha por 30 mil réis. A dica de usar modelos vivos para fazer ilustrações foi dada por Cortez, que aprendera a técnica com seu mestre português, o desenhista E.T. Coelho.

O técnico em revelação e fotógrafo amador que virou desenhista nas horas vagas passou então a fazer cartões humorísticos coloridos, cuja seleção de cores ele fazia “a unha”, como se dizia nos meios gráficos, referindo-se à limitação de equipamentos disponíveis para imprimir as cores das ilustrações – colocadas uma sobre a outra, num lento processo que sempre implicava numa grande perda de papel até se conseguir o ajuste ideal.

Ao mesmo tempo, Miguel passou a ilustrar livros para a Editora do Brasil, do “doutor” Carlos Costa, que lhe foi apresentado por Cortez. Nessa editora, conheceu Álvaro de Moya e Silas Roberg, também desenhista e roteirista iniciantes de quadrinhos, respectivamente. Com a dupla faria a Primeira Exposição Internacional de Quadrinhos, em 1951.

SURFISTA_PRATEADO_N20Alguns meses depois de sua aproximação com Cortez, ele soube pelo amigo sobre as atividades e os projetos de expansão da Editora La Selva na área de quadrinhos – até então, era conhecida principalmente como distribuidora de revistas e responsável pela revista Bom humor. “Não fui convidado para trabalhar na La Selva. Eu mesmo me ofereci como colaborador”, ressaltou Miguel em uma longa entrevista que me concedeu em 1992.

Ele foi apresentado aos donos da editora por Cortez. “Reinaldo (de Oliveira) era empregado da La Selva, juntamente com um rapaz chamado Milton Júlio. Eles cuidavam das revistas e tentavam proteger o pessoal daqui, os desenhistas brasileiros, e davam serviço para a gente, entende? Mas era muito difícil conseguir trabalho por causa da preferência dos donos das editoras pelo material estrangeiro”, contou Miguel.

Seus primeiros trabalhos publicados pela editora – que funcionava num sobrado na Rua Pedro de Toledo, na Vila Mariana – foram as capas da revista policial Seleções Enigmáticas e ilustrações de contos para a revista Gilda, a partir de 1951. A aventura pelos quadrinhos nacionais para os idealistas Miguel Penteado e Jaime Cortez estava apenas começando.

Por volta de 1953, Miguel andava descontente com a sua colaboração na La Selva. Mas precisava do bico para reforçar o orçamento. Um de seus rendimentos, havia algum tempo, vinha de colaborações na Gráfica e Editora Novo Mundo, de Victor Chiodi com outro sócio. Apesar de aparecer esporadicamente, Miguel não se conformava com a bagunça da Novo Mundo. A oficina era própria, mas suja, feia e bagunçada. Para piorar, Chiodi devia dinheiro para todo mundo.

Ao ouvir as observações do amigo, Chiodi propôs-lhe o desafio de arrumar a casa. Mais precisamente, dirigir a gráfica. “Aquilo me deu muito trabalho, mas consegui colocar as coisas nos eixos quanto aos pagamentos das dívidas”. Miguel se saiu tão bem que logo estava sobrando algum dinheiro. “Decidimos até comprar um armazém na Rua Carneiro Leão. Em seguida, vendemos as máquinas tipográficas e compramos off set. Montamos a oficina e o escritório foi construído num elevado”.

Apesar do sucesso, Miguel não estava satisfeito com a função, muito burocrática e que nada exigia de sua criatividade como artista. “Aconteceu que eu já estava com muita saudade do desenho. Avisava Chiodi da minha intenção em relação a isso e ele contemporizava, até que chegou um dia que quis acertar as coisas, sair. Então ele me propôs fazer uma sociedade, dividida em três partes”.

Em 1959, uma turma de desenhistas e roteiristas de quadrinhos que trabalhava na La Selva decidiu sair e montar sua própria editora. Estavam juntos outra vez à frente da idéia a incansável dupla Miguel e Cortez. “Sempre estivemos insatisfeitos com a La Selva; eles (os La Selva) formavam uma empresa comercial, mas eram muito arrogantes”, explicou Miguel.

A editora nasceu da união de um grupo de amigos que há cerca de dez anos decidiram viver de quadrinhos. A sociedade foi composta por Miguel, Victor Chiodi, Cláudio de Souza, Eli Otávio de Lacerda, Arthur de Oliveira, José Sidekerkis e Cortez. O projeto da Continental brotou também das longas conversas entre Cortez e Miguel no Studioarte desde os primeiros anos da década de 1950. O que aconteceu em seguida virou história.

Desavenças entre Miguel e os sócios, principalmente Cortez, levaram-no a sair da editora. Ele, então, fundou a Gráfica e Editora Penteado (GEP), que seria responsável pelo lançamento de parte do material da Marvel no Brasil a partir de 1969, quando publicou, entre outros, Surfista Prateado e X-Men.

Em 1972, cansado de ver suas revistas de pinups e piadas apreendidas pela censura, através da Polícia Federal, Miguel Penteado resolveu parar com a atividade de editor. Tocou sua gráfica até 1980 e se aposentou. Foi morar numa pequena cidade do litoral paulista, onde repousou como um guerreiro cansado, mas orgulhoso, pois jamais abriu mão dos princípios que nortearam sua vida.

MEMÓRIA HQ – VOCÊ SABE QUEM FOI TONINHO DUARTE?

nov 30, 2009 |

jn21007Qualquer veterano do mercado de histórias em quadrinhos de São Paulo sabe quem foi Toninho Duarte. Ou ouviu falar em seu nome. Principalmente aqueles que atuaram entre as décadas de 1960 e 1990. Muito correto e um cavalheiro com todos que se dirigiam a ele, Toninho seria lembrado como exemplo de profissional para os colegas.

Apaixonado por gibis, criou nos anos de 1960 para a editora Pan-juvenil a Revista da Meninada, publicação que, como indica o título, usou para falar com o público que mais lhe interessava: as crianças. Criou até um personagem de si mesmo, o Tio Toninho, a quem recorria para contar histórias infantis.

Toninho não era um grande desenhista, mas estabeleceu um estilo próprio, diferente de tudo que havia em sua época, sem exteriorizar uma influência direta. Preferia ilustrar os roteiros de seu irmão e parceiro Bené Rodrigues, com quem criou tipos como Ticão, um garoto negro que adorava jogar futebol. Seu melhor amigo era Bebê. O craque da turma era Peleco, por motivos óbvios.

Com seu amigo Fausto Takaoka, ele deixou um esboço de biografia de duas páginas que escreveu em folha de caderno, de próprio punho. Por lá se sabe que nasceu na fazenda Monte Alegre, município de Ribeirão Preto, em 1939. No final de 1946, quando tinha sete anos, sua família se mudou para São Paulo, onde ele e os irmãos Benê e Alex descobriram as revistas em quadrinhos e resolveram se tornar desenhistas.

Ao ver um anúncio na última capa de uma edição da revista O Terror Negro, da La Selva, inscreveu-se num curso de desenho por correspondência na Argentina, ministrado pelo notável desenhista Carlos Clemen – que, saberia depois, fora mestre de seu amigo Rodolfo Zalla. Em 1954, ele e Bené criaram A turma da meninada, uma série infantil com vários personagens – teriam de esperar dez anos para colocá-la nas bancas em forma de revista.

A primeira oportunidade de trabalho veio no ano seguinte, quando o editor Miguel Penteado (1918-2000) o chamou para trabalhar no departamento de arte da Editora e Gráfica Novo Mundo. Além de letrista de quadrinhos, Toninho fez algumas páginas do personagem Juju Faísca e anúncios estampados nas capas internas e externa dos gibis.

Quatro anos depois, foi trabalhar no departamento de quadrinhos da La Selva, a convite de Jayme Cortez (1926-1987). Pôde assim realizar um sonho de adolescência, tamanha a sua paixão pelos gibis de terror. Com a fundação da Continental em 1959, acompanhou Cortez na nova editoria, como coordenador gráfico e seu braço direito.

Nessa época, aprendeu mais um passo na profissão: fazer fotolito. Finalmente, em 1961, foi chamado para ser diretor de arte da Pan-juvenil, dos irmãos Salvador e João Bentivegna, onde teria a oportunidade de lançar sua primeira (e única, ao que parece) revista em quadrinhos – A Revista da Meninada, que circularia por cinco números.

Foi na editora que acolheu um garoto chamado Minami Keizi, vindo do interior e que permaneceu quatro meses como seu aprendiz, o que lhe permitiu conhecer os artistas que freqüentavam a editora e se tornar amigos de todos eles. Minami seria o fundador da Edrel, editora que deu continuidade ao projeto inicial da Pan-juvenil a partir de 1967.

Toninho teve seu grande momento como diretor de arte e editor na Pan-juvenil. Além de seus quadrinhos, cuidou de duas revistas que seriam importantes na história da Edrel: Garotas & piadas (com cartuns e fotos de garotas semi-nuas) e Humor negro, uma divertida brincadeira com um dos gêneros que mais fazia sucesso na naquela década. Num dos cartuns que criou, colocou numa lápide: “Aqui jaz Toninho Duarte”. Mas ele viveria ainda por muito tempo.

Depois da Pan-juvenil, Toninho continuou a trabalhar nos bastidores das pequenas editoras de São Paulo como programador visual. Passou pela GEP, Roval, Trieste, Noblet e muitas outras. No tempo da Kultus, na década de 1970, uma japonesinha foi procurá-lo porque queria ser desenhista. Os dois se apaixonaram e ficariam juntos até o artista gráfico ser assassinado durante um assalto em 2003, quando saía de casa para entregar uma encomenda. Teria sido atacado por um assaltante, que o atingiu com um objeto pontiagudo na cabeça. Socorrido, não resistiu aos ferimentos. Um fim estúpido e inaceitável de um grande artista.

MEMÓRIA HQ – VOCÊ SABE QUEM FOI JERÔNYMO MONTEIRO?

jul 8, 2009 | 2

O Pato DonaldSe você respondeu que é o pai da literatura de ficção científica no Brasil, acertou na mosca. Mas ele fez outras atividades bem importantes no mundo cultural paulistano entre as décadas de 1930 e 1960. Principalmente no rádio. O que pouco se diz é que Jerônymo teve uma passagem importante ligada aos quadrinhos brasileiros.

Nascido em 1909, há exatos cem anos, portanto, foi ele o primeiro editor da Editora Abril, fundada por Victor Civita (1907-1990) em dezembro de 1949 – embora a primeira revista, Raio Vermelho, que também editou, só chegasse às bancas em maio do ano seguinte. Caberia a ele cuidar daquela que seria oficialmente a publicação que iniciou a bem sucedida trajetória da Abril, a revistinha O Pato Donald – além de primeiro diretor da publicação, ocupava as funções de tradutor, redator e secretário.

Como conto no meu livro O Homem-Abril, publicado pela Opera Graphica em 2005, o próprio Jerônymo indicou Cláudio de Souza para substituí-lo na editora de Civita, em 1951. O jovem era, então, estudante de Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP), além de acumular uma breve carreira no rádio e no suplemento A Gazeta Juvenil – , suplemento pioneiro dos quadrinhos em São Paulo.

Seu padrinho ocupava a posição de um dos mais respeitados criadores do rádio e da ficção científica em São Paulo. Como radialista, tornou-se um dos precursores das radionovelas na América Latina, ao lançar, na antiga Rádio Tupi, o seriado radiofônico “As aventura de Dick Peter”, patrocinado pelo Café Jardim, a partir de 1937. Fez tanto sucesso, que Monteiro lançou 15 livros com suas histórias e levou-o aos quadrinhos pela Editora La Selva a partir de agosto de 1952, com roteiro de Syllas Roberg e capa e desenhos de Jayme Cortez.

Cláudio se lembraria do amigo como um autodidata de grande cultura, que tinha “espetacular imaginação e enorme capacidade de trabalho”. Como um dos primeiros autores brasileiros de literatura policial, Jerônymo Monteiro adotou o pseudônimo americano de “Ronnie Wells” – com a justificativa de que não seria levado a sério se usasse o próprio nome, bem brasileiro, uma vez que os leitores estavam acostumados a autores estrangeiros. jn21^005

Outro pioneirismo seu foi como autor de science-fiction – na época, a denominação usada no país era mesmo em inglês. Seria depois celebrado como o pai do gênero no Brasil. Seu livro “Três Meses no Século 81” se tornaria um clássico. Outro sucesso, Os visitantes do espaço, fez parte da coleção Ciencifcção, da editora Edart. “Os discos voadores traziam estranhas criaturas – poderosas e inteligentes – que vinham de Io, o segundo satélite de Júpiter”, anunciava a edição. Jerônymo escreveu também livros com histórias de aventuras – “A Cidade Perdida” e “O Irmão do Diabo” foram alguns.

No relação profissional, Cláudio de Souza o definiu ainda como um homem simples e generoso, que jamais deixou de ajudar os amigos. “Lembro-me dele como alguém muito leal e grande companheiro”. E foi durante um encontro dos dois nos estúdios da antiga Rádio Excelsior que ele soube por Jerônymo da Abril pela primeira vez, quase um ano antes de se tornar empregado de Civita. A emissora – que depois se tornaria Rádio Nacional de São Paulo – funcionava num prédio da rua 24 de maio, centro da cidade.

Jerônymo lhe falou da editora em junho de 1950, quando o Brasil tentava ganhar sua primeira Copa do Mundo de futebol – a competição começava a ser disputada no recém-inaugurado estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Cláudio trabalhava com ele desde o início do ano, quando este dirigia o tablóide Gazeta Juvenil, do jornal A Gazeta. Logo depois, Jerônymo passou a ocupar a direção da Excelsior. A amizade continuou e eles sempre se encontravam.

Um dia, contou a Cláudio que estava editando uma certa revistinha em quadrinhos chamada O Pato Donald para um empresário americano, que iria para as bancas em poucos dias. Quando lhe revelou a boa nova, um extasiado editor apresentou ao colega as provas impressas da revista. “Naquele dia, ele me mostrou, com grande orgulho, a primeira folha de impressão do número 1 do ‘Pato’. Literalmente, vi o bicho sair da casca”.

A prova que Cláudio viu era o caderno externo, em cores, inicialmente impresso na Gráfica “Lanzara”, considerada a melhor impressora em off-set da capital paulista. O resto da revista seria rodado nos dias seguintes, na Gráfica e Editora Revista dos Tribunais, com uma só cor. “Parecia que eu estava vendo o ‘Pato’ sair do ovo”, repetiu Cláudio. “Fiquei emocionado. Acho que Jerônymo percebeu o brilho dos meus olhos. Tanto assim que, muitos meses depois, ele me telefonou dizendo que um senhor chamado Victor Civita queria me conhecer”.

O amigo lhe disse que o empresário precisava de um jovem jornalista que, de preferência, cursasse direito – o que era muito comum, pois durante décadas, como não havia curso de jornalismo, as faculdades de direito eram o primeiro passo para os interessados em trabalhar em jornal. Assim, além de ajudar nas edições das revistas, Cláudio cuidaria do livro de registro dos empregados. Ao fazer o convite, alertou o amigo que o dono da editora gostava de pontualidade e, portanto, deveria chegar cedo ao encontro. O rapaz conseguiu a vaga e foi importante para construir a história da editora nos vinte e cinco anos seguintes.

Jerônymo Monteiro morreu em 1970. Nessas quatro décadas, seu nome tem sido carinhosamente preservado entre aqueles que cultuam a ficção científica no Brasil. É tempo, portanto, de lembrar dele como alguém que ajudou a fazer a história dos quadrinhos no Brasil.

MEMÓRIA HQ – RAUL PEDERNEIRAS.

jul 1, 2009 | 2

jn21^002Quem consultar a Wikipédia, por exemplo, encontrará o nome do carioca Raul Paranhos Pederneiras (1874-1953) como caricaturista, ilustrador, pintor, professor, teatrólogo, compositor e escritor brasileiro. Mas ele foi além disso. Mito da imprensa e das artes plásticas em sua época, nas três primeiras décadas do século XXI, Raul merece ser lembrado como um dos pais das histórias em quadrinhos brasileiras.

Muitos anos antes de Will Eisner (1917-2005) nascer ele já experimentava as possibilidades da narrativa gráfica sequenciada, principalmente na paginação dos quadrinhos, como se pode ver na excelente pesquisa realizada pela historiadora Laura Moutinho Nery em sua dissertação de mestrado Cenas da vida carioca : Raul Pederneiras e a belle époque do Rio de Janeiro.

Ela fez um retrato revelador sobre esse inigualável artista. Numa página da revista humorística Tagarela, de 1903, Raul usava a narrativa seqüencial em três quadros para contar uma gag. Uma típica tira como se veria depois, sem dúvida. Um ano antes, na mesma publicação, retratou em cinco cenas sua crítica à retirada dos mictórios da cidade e dedicou a piada à Prefeitura da cidade.

Mas foi no álbum Cenas da vida carioca, coluna que fazia para a Revista da Semana – também publicava sátiras no Jornal do Brasil – que ele se mostrou um exímio autor de quadrinhos, embora jamais usasse o recurso dos balões, preferia as legendas. Numa das histórias, intitulada “No municipal”, ele retratava com graça um dos prazeres da elite carioca – ir a espetáculos no mais pomposo teatro da cidade. Mas foi com “O povoamento do solo, nos sábados, à tarde”, que mostrou refinamento.

Ainda nessa coluna, em “Casa de cômodos”, de 1924, que ele dava um corte lateral num sobrado de quatro andares que permitia ao leitor observar tudo que acontecia em todos os pavimentos e personagens ao mesmo tempo, numa surpreendente síntese que não se vira até então.

Se fosse fazer do modo convencional, Raul precisaria de algumas páginas para explicar o que se passava com cada figura e que tudo acontecia numa mesma casa, uma vez que havia pisos diferentes. Outra ousadia sua aparecia em “Algumas figuras de ontem”, da mesma edição, em que ele retratava mais de duas dezenas de personagens típicos de sua cidade apenas com a silhueta, pois preferiu trabalhar apenas com “sombras”, todas em preto.

A produção de Raul Pederneiras nos quadrinhos ainda espera o resgate merecido. Sua atuação como caricaturista e pintor tem até sido mais observada, o que é um ponto positivo. Desde 1898, quando começou sua carreira no humorístico O Mercúrio, aos 24 anos de idade, passou a explorar o cotidiano de sua cidade, com seu provincianismo crônico e que muito o incomodava. O jornal era impresso em cores – mesmo de modo rudimentar, uma façanha para a época – e circulou no Rio de Janeiro naquele fim de século.

Desde o começo, costumava assinar seus trabalhos com apenas “Raul”. Mas, com o tempo, adotaria vários pseudônimos: Luar, João Cena, César João Fernandes etc. Em pouco tempo, ficou muito conhecido na capital da República por causa de sua intensa produção – colaborou assiduamente em diversos periódicos cariocas, como a Revista da Semana, O Tagarela, D. Quixote, Fon-Fon, O Malho e o Jornal do Brasil – e por sua participação na vida cultural da cidade.

Dono de um bigodão raro que parecia equilibrar no tempo e no espaço o corpo magro e comprido, sempre escondido num justo terno preto, Raul formou, ao lado de José Carlos de Brito e Cunha, o J. Carlos (1884-1950), e Calixto Cordeiro, o K. Lixto (1877-1957) a tríade mais famosa da capital brasileira nas primeiras décadas da República. jn21^001

Como pintor, tinha sua técnica preferida, a aquarela. Apesar de participar de muitas exposições coletivas, realizou apenas uma mostra individual, em 1926, no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Mas foram as artes gráficas sua grande paixão. Ele adorava fazer onomatogramas, nome que se dá às figuras formadas pelos nomes de pessoas. Tudo isso fez com que ele virasse nome de rua conhecida na cidade que tão bem retratou em suas caricaturas, charges e quadrinhos.

Como escreve Ricardo Cravo Albim, se não bastasse tudo que fez em desenho, o artista se formou em Direito na Faculdade do Rio de Janeiro. Era irmão do poeta Mário Pederneiras e presidiu a Associação Brasileira de Imprensa, atuou como conselheiro da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, foi delegado de Polícia e membro de associações científicas e literárias.

No auge de sua carreira, tornou-se uma respeitado professor de Anatomia e Fisiologia Artística na Escola Nacional de Belas Artes, entre 1918 e 1938. Nesse ano, trocou o pincel pela lei e virou professor de Direito Internacional na Faculdade de Direito da antiga Universidade do Brasil, onde de aula até a sua aposentadoria e ainda publicou um livro jurídico que virou referência por muito tempo.

Basta? Não. Raul Pederneiras foi teatrólogo e autor de várias revistas, que dividiu com nomes famosos da cena brasileira, como Luís Peixoto (cunhado de Ari Barroso e amigo de Adolfo Aizen, aquele que trouxe os quadrinhos de aventura para o Brasil em 1934) e Aparício Torelli (Aporelli), o Barão de Itararé (1895-1971).

Escreveu  nesse gênero “O Badalo” (c/ Vicente Reis), “Meu boi morreu” (c/ Luís Peixoto), “Podia ser pior” (c/ J. Praxedes) e outras. E ainda encontrou tempo para compor cançonetas e uma opereta. E as canções “Trovas roceiras” (música de Armando Percival), gravada por Patrício Teixeira em 1928; “Caboclo bom” (música de Hekel Tavares), gravada por Paraguaçu, em 1929; e “A viola do jangadeiro” (música de Freire Júnior).

Raul Pederneiras deixou também publicações como o curioso livro Geringonça Carioca: Verbete para um dicionário de gíria, e alguns volumes com versos humorísticos: Com licença (1898), Versos (1900) e Musa travessa (1936). Sem dúvida, um dos mais fascinantes personagens das artes gráficas brasileiras.

Gonçalo Junior é jornalista. Atualmente, edita a revista Personnalité, feita pela Editora Trip para o Banco Itaú. É autor de treze livros sobre quadrinhos, cinema, televisão e artes gráficas. Dentre eles, A Guerra dos Gibis (Companhia das Letras), O Homem-Abril (Opera Graphica), Tentação à Italiana (Opera Graphica) e País da TV (Conrad).

Escreve para o site da Comix porque é muito amigo da turma dessa incrível loja, segundo suas palavras.

MEMÓRIA HQ – VITO LA SELVA

jun 24, 2009 | 4

jn22006Ele pode (e deve) ser considerado o primeiro grande editor de revistas em quadrinhos de São Paulo. E aquele que lançou, em junho de 1950, o gibi pioneiro de terror brasileiro, O Terror Negro. Na verdade, o personagem que deu título à publicação inicialmente era The Black Terror, um obscuro super-herói que só fez sucesso no Brasil, ao que parece. Tanto que teve apenas poucas aventuras produzidas nos Estados Unidos e acabou cancelado. A revista brasileira, então, foi suspensa no número 9. Mas as boas vendas e os pedidos dos leitores por carta fizeram com que a mesma fosse relançada em setembro de 1951, dessa vez como revista de horror. Um marco nos quadrinhos do Brasil.

 

Antes de La Selva, no gênero quadrinhos existiram em São Paulo apenas o suplemento A Gazeta Juvenil – do jornal A Gazeta, que teve três séries, a partir de 1929 – e um gibi pioneiro chamado Cômico Colegial, do editor Auro Teixeira, que seria comprado por Vito La Selva (1900-1968) e transformado numa série de publicações. Na verdade, a Editora La Selva começou a publicar revistas quase ao mesmo tempo que a Abril, de Victor Civita (1907-1990).

O Terror Negro saiu em junho de 1950, enquanto Civita lançou O Raio Vermelho, sua primeira publicação, em maio; e O Pato Donald em julho. Mas, enquanto a Abril se dedicou timidamente a lançar poucas revistas em quadrinhos – somente a do pato e de Mickey (1952) sobreviveriam – a La Selva publicou dezenas de títulos em quadrinhos de faroeste, infantis, terror, romance para moças e policiais que a colocaram como a mais importante editora de revistas fora do Rio de Janeiro – onde funcionavam as grandes RGE, Ebal e O Cruzeiro.

 

Vito Antonio La Selva desembarcou no porto de Santos em 1904, em companhia de seus pais, vindos da Itália. Tinha apenas 4 anos de idade. Ainda menino, como centenas de meninos filhos de imigrantes, foi vender jornal para ajudar nas despesas de casa. Aos 17 anos, convenceu seus pais a deixá-lo retornar à Itália para prestar serviço militar e trabalhar. Ficou por lá até 1925, quando retornou a São Paulo disposto a “fazer a vida” de alguma forma, pois a situação econômica era difícil em seu país. nv26001

 

Atraia-o o mundo gráfico e da imprensa, meio que empregava muitos patrícios seus na capital paulista. Ao chegar, depois de procurar trabalho em alguns ramos, voltou a trabalhar com venda de jornais e revistas pelas ruas. Virou o que se poderia chamar de jornaleiro – na época, jornais e revistas eram vendidos sobre caixotes e até varais. A modesta profissão o ensinaria todos os segredos do mercado, como perceberia depois. Em 1933, tornou-se proprietário de uma das poucas bancas existentes na cidade, instalada na Praça da Sé.

 

O negócio prosperou. Dois anos depois, Vito montou uma pequena empresa de distribuição de jornais e revistas para toda a região metropolitana da capital. Deu seu sobrenome ao negócio. Pouco tempo se passou quando ele decidiu se associar a um outro italiano, de sobrenome Pelegrini. A parceria permitiu que ampliasse seu leque de revistas, firmando contrato com outras editoras.

 

Entre as novidades de seu catálogo estavam as femininas Vida Doméstica, Jornal das Moças e Parati, que vendiam bem, embora o mercado fosse mais genérico e predominantemente masculino. Com a ajuda dos quatros filhos – Giácomo, Antonio, Pascoal e Estevão –, ainda adolescentes, no final dos anos de 1940, Vito tentou alguns voos editoriais ao entrar como co-editor nas revistas Bom Humor e Aventuras.

 

Em 1947, resolveu rompeu a sociedade com Pelegrini e a La Selva preparou para alçar seu caminho editorial. A nova empreitada de Vito e filhos resultou na fundação da Editora La Selva, a primeira de uma série de empresas editoriais paulistas que nos anos 1950 e 1960 viriam a ser denominadas de “editoras do Brás” – passaria a maior parte de sua história, porém, no bairro de Vila Mariana.

 

Simpático às histórias em quadrinhos, consumidas avidamente por seus filhos desde crianças e um dos seus principais produtos distribuídos, Vito soube que o dono e fundador da revista em quadrinhos O Cômico Colegial, Auro Teixeira – um dos pioneiros dos quadrinhos paulistas e ignorado pelos historiadores – enfrentava sérias dificuldades financeiras para manter a revista circulando e comprou dele o título.

 

Oficialmente, a La Selva começou a existir no começo de de 1950, quando lançou em março sua bem sucedida Seleções de Rir Ilustrada, uma das mais famosas revistas de garotas do país e que se transformaria numa mania nacional muito lida em salões de barbeiro até seu auge, em 1958 – depois entrou em decadência, até desaparecer no início dos anos de 1960, engolida pela concorrência de duas dezenas de títulos.

 

Ao longo de toda a primeira década, a editora foi rainha absoluta do mercado paulistano de gibi. Um dos filões que explorou com grande sucesso foram as adaptações para os quadrinhos de séries do cinema e da TV estrangeiras e nacionais – montou um núcleo comandado por Jayme Cortez (1926-1987) para produzir histórias de Mazzaropi, Oscarito e Grande Otelo, Arrelia e Pimentinha, além de publicar os estrangeiros Os três patetas, Abbott & Costello e outros. Lançou também o primeiro gibi nacional de The Spirit, de Will Eisner – que batizou como O Espírito.

 

Vito La Selva morreu em 1968, quando sua editora dava os últimos suspiros, devastada por uma intensa guerra entre os filhos e abalada por uma enchente ocorrida três anos antes, que destruiu todos os seus depósitos de livros – na época, a editora apostava forte em reembolso postal e havia armazenado muitos volumes. Em tempo: a La Selva editora nada tem a ver com a rede de livrarias Laselva, de São Paulo cuja grafia tem as palavras unidas.

 

 

 

 

 

Gonçalo Junior é jornalista. Atualmente, edita a revista Personnalité, feita pela Editora Trip para o Banco Itaú. É autor de treze livros sobre quadrinhos, cinema, televisão e artes gráficas. Dentre eles, A Guerra dos Gibis (Companhia das Letras), O Homem-Abril (Opera Graphica), Tentação à Italiana (Opera Graphica) e País da TV (Conrad).

Escreve para o site da Comix porque é muito amigo da turma dessa incrível loja, segundo suas palavras.