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Homem de Aço / Crítica

Homem de Aço / Crítica

Comix Book Shop | Ligado 21, jul 2013

Por Alexandre Callari, do site parceiro Pipoca e Nanquim.

Recriar o maior herói de todos os tempos para um público moderno! Dar um tratamento que o tornasse contemporâneo, mas conservasse sua essência! Apagar a imagem gravada no inconsciente coletivo de um dos filmes que, embora lançado há mais de 3 décadas, continua sendo lembrado como um dos melhores (se não o melhor) exemplar do gênero! Combater oponentes de peso, como os filmes da Marvel Studios, e sucessos como a série Senhor dos Anéis, que competem pelo mesmo público! Enfim, em última instância, conseguir o mais difícil nos dias de hoje: ser relevante!

Essas eram apenas algumas das tarefas de O Homem de Aço, novo filme estrelado pelo Último Filho de Krypton, Superman, em cartaz no país desde o dia 12 de julho. E, na opinião deste que vos escreve, o resultado foi muito bem-sucedido.

Não vou negar que o filme tenha alguns problemas. Acredito, por exemplo, que há tantas boas ideias juntas, que o diretor Zack Snyder (300, Madrugada dos Mortos) não conseguiu desenvolver todas adequadamente; certos conceitos ficam superficiais, outros inacabados/incompletos, subdesenvolvidos ou simplesmente truncados. Em certo ponto do filme, tudo acontece rápido demais, por exemplo, (SPOILERS À FRENTE) desde a descoberta da nave kryptoniana, passando pelo encontro do Superman com Lois, a investigação feita por ela, a rendição ao exército, até a chegada de Zod à Terra – tudo acontece rápido demais. Isso atrapalha a diversão? Para os preciosistas, talvez. Da minha parte, acho que o ritmo poderia ter sido um pouco mais cadenciado nesses momentos, mesmo que isso significasse sacrificar algumas ideias – mas até aí, o filme não é meu, mas de Snyder e do competente produtor/roteirista Christopher Nolan, que recriaram a lenda do Homem do Amanhã. E a visão deles não é algo que deve ser desprezado.

 

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A trama do filme é relativamente simples, o que não significa que ela seja pobre. Na verdade, se a linha condutora é reta e direta ao ponto, elementar até, o que dá cor e vida são os detalhes – a construção dos personagens e do mundo, nos mínimos detalhes.

Krypton é um espetáculo à parte, tanto visualmente quanto a variedade de conceitos utilizados (repare como, com exceção do metal líquido, todos os demais artefatos do planeta não têm metal, sendo claramente futuristas e alienígenas, porém feitos de uma combinação de materiais orgânicos).

Os produtores criaram um mundo sufocante em que sua civilização brincou de Deus além da conta, e agora sofre as consequências. Ok, isso já estava presente nos quadrinhos, mas este Krypton é uma mistura de Matrix com Admirável Mundo Novo; uma sociedade em que a espontaneidade foi perdida, substituída por pessoas autômatas, que carregam nos seus genes o fardo da obediência. Elas não podem se desvencilhar do que são, foram programadas para ser assim – o que explica o comportamento de Zod – exceto o único kryptoniano nascido de um processo natural, o nosso Kal-El. Ao afastá-lo do parto mecânico proposto pela sociedade, Snyder cria contornos míticos ao nascimento do futuro herói, o que o aproxima de todas as grandes fábulas religiosas da nossa história, de Krishna à Cristo, de Moisés à Buda – todos dotados de histórias fabulosas de nascimento. Aliás, com exceção do Buda, todos esses notórios mestres também tiveram de fugir do mundo que se despedaçava ao seu redor!

Sim, o caráter messiânico está presente em todos os momentos (há uma cena absolutamente explícita que ilustra isso entre Superman e Jor-El); um misto de religião com tragédia grega, temperado com elementos pop. Pode-se dizer que é uma grande salada, cheia de homenagens e referências (às vezes, autorreferências), mas que no fim das coisas, funciona!

 

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Muita gente desconsidera Superman como um grande personagem, dotado de profundidade emocional e psicológica pelo fato de ele ser capaz de praticamente tudo, mas O Homem de Aço explora com competência justamente essa questão: por ser capaz de tudo, Kal-El se torna um pária, alguém que não encontra seu lugar no mundo e que, no final, precisará tomar a decisão definitiva: interferir ou não? E essa trajetória é contada de forma bela e envolvente.

 

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Esteticamente, Snyder fez uma escolha muito interessante. Por exemplo, em Krypton é onde vemos a maior parte de planos abertos e grandiosos, que mostram a magnificência daquele mundo. Mas, quando somos apresentados a Clark Kent na Terra, o diretor  fez a opção de registrar a odisseia dele com câmeras de mão; ou seja, estamos o tempo todo caminhando ao lado de Clark Kent como testemunhas intimistas da ação, “participando” como se estivéssemos ao seu lado, testemunhando as descobertas dele quase da mesma perspectiva que o próprio – tudo isso com o propósito de gerar empatia entre o público e um personagem que, no fundo, é um alienígena. Uma escolha corajosa e brilhante!

Escolha corajosa também foi a do ator, Henry Cavill. Snyder seguiu o mesmo princípio da escolha de Christopher Reeve na época de Superman – o Filme, ou seja, era preciso que o protagonista fosse um desconhecido para que o rosto de um grande ator não se confundisse (ou pior, fizesse sombra) com o do herói. O ator escolhido jamais poderia ser maior do que o mito do Superman. Ainda assim, Superman é um herói norte-americano, que personifica os principais valores dos EUA – e Cavill é inglês! O que Snyder tinha na cabeça ao fazer tal opção? Ora, é evidente. A escolha dele, mais uma vez, demonstra a preocupação com o desenvolvimento do personagem: Kal-El veio de outro planeta! Jamais poderia ser tratado como um puro e estereotipado norte-americano! O fato de Cavill ser inglês, aumenta o senso de “estranho num lugar estranho” que o filme tenta transmitir o tempo todo.

A despeito disso tudo, Cavill realmente tem um carisma espetacular, é convincente, atua bem e  consegue um feito muito, muito difícil no cinema dos dias de hoje (alcançado em tempos recentes apenas pelo novo 007, Daniel Craig): ele faz com que todas as mulheres suspirem por ele, ao mesmo tempo que faz com que os homens queiram ser como ele!

O novo Superman continua sendo um bom moço, mas parte da inocência se foi. Quando ele fala, inspira confiança, é sereno e transmite um senso de calmaria; você realmente acredita no que ele diz. Mas, nem por isso, ele é tonto, muito pelo contrário. A forma com que encara o exército dos EUA e trata oficias da mais alta patente diz tudo. Kal-El é mais inteligente do que todos eles! Isso sem contar que o final reserva uma surpresa atordoante (uma grande homenagem à John Byrne, intencional ou não).

O elenco está muito bem. Embora todos esses grandes atores juntos não tenham muito espaço para brilhar, Christopher Meloni, Diane Lane, Kevin Costner e Laurence Fishburne cumprem seu papel, com destaque para Costner, que tem apenas três cenas, mas cuja presença permeia toda a essência e dilemas do protagonista. Russel Crowe, por sua vez, tem um grande destaque como o cientista kryptoniano Jor-El – e não decepciona, mandando ver em cenas de ação e sendo tanto a voz de Krypton, quanto uma espécie de consciência e guia espiritual para seu filho. Michael Shannon também emprega uma dose de periculosidade e fúria no seu Zod raramente vista no cinema atual. Sua atuação, com exceção da de Cavill, talvez seja a melhor do longa.

 

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Por fim, temos Amy Adams – sensacional no papel de Lois Lane. Ela recuperou o espírito original da repórter que, na época da sua criação, foi uma personagem inovadora e audaciosa, uma mulher encardida, que não abaixava a cabeça para ninguém e ia atrás do que queria. Há, contudo, uma subversão no relacionamento Lois Lane/Superman que pode não agradar os puristas. Da minha parte, não incomodou em nada, mas abre interessantes caminhos potenciais.

No fim das contas, O Homem de Aço não é um filme que reescreverá a história, mas funciona como entretenimento, leva a algumas reflexões quanto à verdadeira natureza do poder e como deve ser usado e é visualmente arrebatador. Basta dizer que se você se impressionou com o que acontece no ato final de Os Vingadores… bem, digamos que aqui, Metrópolis fica num estado beeeeeem pior do que Manhattan. Sem dúvida, vale a pipoca!

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